quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O que está acontecendo no Rio?

Você sabe porque estão acontecendo essas catástrofes no Rio e vitimando tantas pessoas?

Para saber mais, estamos publicando um esclarecimento que o escalador Antonio Paulo Faria enviou para a lista da Hang On.

Antonio Paulo é professor e pesquisador (D.Sc) do Instituto de Geociências da UFRJ desde 1996 e parte do seu trabalho é dedicada à pesquisa científica em ambientes de montanha. Já viajou e escalou montanhas nos quatro continentes, sendo hoje um dos escaladores brasileiros mais experientes em atividade.

Aprendemos alguma coisa?

Estudei casos como o que ocorreu na Serra em várias partes do mundo, é o que ensino nas universidades (UFRJ, UERJ, PUC, Univ. de San Diego) e não tem jeito. Primeiro porque o relevo é dinâmico, um dia "tudo" cai (solos, rochas fraturadas...) e os fundos dos vales enchem, depende apenas do volume de chuva que, periodicamente, de 30 em 30 anos, de 50 em 50... cai em quantidade excepcional. Quanto maior o período de recorrência, maior é a catástrofe. Isso é uma regra. Posteriormente vem a ignorância das pessoas e dos governos: pessoas morando ao lado e às vezes, dentro dos rios, pessoas construindo casas na base de cortes enormes feitos nas vertentes das montanhas. Essas áreas não são simplesmente áreas de risco, são áreas de catástrofes eminentes. Quase sempre que voltava de Salinas, via Teresópolis, podia imaginar isso acontecendo, inclusive fiz muitas fotos dessa região para ilustrar minhas aulas de Geomorfologia, mostrando aos geólogos, geógrafos e engenheiros, o que NÃO devemos fazer em se tratando de ocupação. Mas infelizmente é uma regra ocupar áreas de risco extremo e também é um crime ambiental. Se as leis ambientais fossem cumpridas pelos municípios e estado, o número de mortos seria baixíssimo.

Irrita ainda ouvir que o governo vai implantar um sistema milionário de alerta contra catástrofes. E digo a vocês, é dinheiro público jogado fora, mesmo porque não é simplesmente alertar, tem que ter também planos de evacuação imediata. Ora, isso soa como piada. Esse dinheiro seria melhor gasto na remoção da população dessas áreas e deixar que haja uma recuperação ambiental espontânea.

Infelizmente, como todos já sabemos, a lama vai ser retirada, as estradas e pontes serão reconstruídas, as mesmas áreas voltarão a ser ocupadas e, talvez em 30 anos, a mesma coisa volte a ocorrer no lugar. Mas pode ocorrer o mesmo nas outras áreas que não foram afetadas, neste ano, ano que vem, daqui a 5 anos...

E para dizer que não estou "fora do tópico" da lista, ambientes de montanha são sempre ambientes de alto risco (para os que lembram dos cursos ministrados na Aguperj/Femerj), independente do clima. Muitos montanhistas morrem em todo o mundo em função dos fluxos torrenciais repentinos (cabeça dágua), foi o que ocorreu na serra, mas neste caso, ocorreu em grande escala.

Sinto muito pelas perdas das pessoas, mas precisamos aprender com isso, evoluir e não cometer os mesmos erros.

Antonio Paulo Faria

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